Uma ordem tem a vantagem de parecer anterior a quem a cumpre. Ela chega pronta, cercada por procedimentos, e oferece ao executor a possibilidade de se imaginar como peça substituível. Não Há Mal Algum investiga essa distância confortável entre o ato praticado e a responsabilidade por ele.

O filme de Mohammad Rasoulof organiza quatro histórias relacionadas à pena de morte no Irã. A estrutura fragmentada é decisiva: não acompanhamos um único protagonista acumulando experiências até alcançar uma resposta. O problema reaparece sob circunstâncias diferentes, e cada nova situação altera o peso da pergunta anterior.

A repetição como pressão moral

O risco de um filme de episódios é transformar cada personagem num exemplo de uma tese. Rasoulof se aproxima deliberadamente desse terreno, pois a questão ética é frontal. O que mantém o interesse é o alcance das consequências. A decisão não termina no instante da execução ou da recusa; atinge relações, projetos de vida e a maneira de permanecer perto de outras pessoas.

Isso impede uma divisão inteiramente confortável entre bons e maus. Reconhecer a pressão exercida por uma instituição não absolve automaticamente quem age em seu nome. Ao mesmo tempo, exigir heroísmo sem considerar o preço da recusa é outra forma de não olhar para a situação concreta.

O título pode ser ouvido como uma frase de tranquilização. Sua força está no atrito com aquilo que as histórias tornam impossível tranquilizar. A normalidade cotidiana não prova ausência de violência: pode ser o ambiente em que ela se acomoda e encontra continuidade.

Quem recebe as consequências?

A estrutura em quatro partes também retira do espectador uma forma simples de descanso. Mesmo quando uma história parece estabelecer sua resposta, a seguinte recoloca o problema. O filme pergunta menos por uma pureza moral do que pela possibilidade de sustentar uma escolha quando ela deixa de ser abstrata.

Há momentos em que a clareza do argumento pode parecer restringir a ambiguidade das personagens. Esse é um limite a considerar, e não um defeito que a importância do tema deva impedir de discutir. Uma obra pode ser politicamente urgente e ainda assim merecer perguntas sobre o modo como organiza nossa concordância.

Sua contribuição mais incisiva é recusar a terceirização da consciência. O procedimento não tem uma vida afetiva que sofrerá em nosso lugar. As consequências recaem sobre pessoas, inclusive aquelas que não participaram da decisão. A ordem oferece uma explicação para o ato; o filme insiste em que explicação e desculpa não são equivalentes.