Quatro horas e trinta e cinco minutos parecem um excesso quando se espera de um documentário uma síntese eficiente do assunto. City Hall, de Frederick Wiseman, torna essa expectativa parte do problema. Uma cidade não cabe apenas nos acontecimentos que a transformam em notícia. Ela precisa funcionar durante os intervalos.
O filme acompanha a administração municipal de Boston. Seu objeto reúne serviços, procedimentos e decisões que afetam o cotidiano. Essa amplitude desloca a ideia de governo: uma prefeitura é também uma quantidade de trabalho que não ganha visibilidade quando se reduz a política ao pronunciamento de seus representantes.
A duração distribui importância
Dar tempo a uma atividade altera a hierarquia da atenção. Um processo rotineiro pode parecer irrelevante quando comparado a uma fala de autoridade. Na experiência acumulada do documentário, porém, a rotina adquire densidade. A cidade depende da continuidade de tarefas que um resumo provavelmente eliminaria.
É possível ler a montagem como uma proposta de convivência entre escalas. A decisão política e sua realização material não ocupam o mesmo lugar, mas precisam ser pensadas juntas. A promessa pública só encontra medida quando se pergunta pelo caminho que a liga à vida de alguém.
Isso não transforma a câmera numa testemunha neutra. Escolher o que acompanhar, quanto tempo conceder e como aproximar situações é construir um argumento. O aparente convite a observar não suspende a autoria; exige que prestemos atenção a uma autoria que não precisa anunciar cada conclusão.
A confiança também precisa de exame
O registro de uma instituição comprometida com o serviço pode produzir alívio, sobretudo diante da desconfiança política. Esse alívio não deve virar imunidade crítica. As pessoas filmadas sabem participar de situações públicas; os discursos institucionais têm vocabulário e interesses. O espectador precisa escutar também a distância possível entre a apresentação de um valor e sua realização.
O interesse do filme, nessa leitura, não depende de provar que Boston oferece um modelo perfeito. Está em tornar pensável uma administração como obrigação contínua. A democracia ganha uma dimensão menos espetacular: precisa de manutenção, escuta e repetição. Essas palavras podem soar modestas, mas envolvem a maneira como direitos deixam de ser apenas declarações.
Na prateleira da 44ª Mostra, City Hall conversa com filmes de escala íntima porque mostra uma forma coletiva de dependência. Ninguém vive apenas daquilo que consegue fazer sozinho. Seu tempo extenso nos convida a reconhecer a quantidade de trabalho alheio que um dia comum costuma esconder.
