Em Anjos Caídos, a solidão não depende de espaços vazios. Ela pode surgir quando tudo parece excessivamente próximo. Rostos, paredes e objetos pressionam a imagem. A cidade oferece contato permanente, mas contato não se transforma necessariamente em encontro.

A grande-angular altera a proporção entre corpo e ambiente. Quem se aproxima da câmera parece separado de quem está logo atrás. A deformação transforma a distância afetiva numa experiência espacial estranha, em que estar junto e estar longe deixam de ser opostos.

A montagem e as mudanças de velocidade impedem que a noite tenha um ritmo uniforme. Há explosões de movimento e momentos que parecem incapazes de terminar. Cada personagem habita uma frequência própria. As vozes íntimas dadas ao espectador não resolvem a dificuldade de falar entre si.

Por isso os contatos breves importam. O filme não precisa transformá-los em relacionamentos duradouros para reconhecer seu valor. Uma cidade incapaz de prometer permanência ainda produz suspensões momentâneas da solidão. A noite continua; por um instante, atravessá-la sozinho deixa de ser a única possibilidade.