Uma casa pode ser vista como uma pequena distribuição de direitos. Quem tem chave, quem pode fechar a porta, quem precisa pedir licença? Aproximar Parasita, A Vida Invisível e Três Verões permite pensar essas perguntas sem transformar os três filmes numa mesma alegoria. O que os reúne é a disputa por uma vida que não esteja inteiramente organizada pela vontade de outra pessoa.

O ponto de partida documental é a 43ª Mostra, realizada de 17 a 30 de outubro de 2019. Os três títulos constam de sua seleção. O percurso proposto aqui é retrospectivo: não pretende recuperar o que uma plateia pensou em determinada sessão, mas construir uma conversa possível entre obras que dividiram aquela programação.

Três formas de atravessar uma porta

Em Parasita, o emprego abre uma passagem para o interior da casa. Essa entrada é condicional. O trabalhador pode circular porque desempenha uma função; confundir circulação com pertencimento é um perigo. A engenharia do suspense de Bong Joon-ho converte essa diferença numa experiência espacial. O espectador aprende a calcular distâncias, esconderijos e tempos de chegada.

Em A Vida Invisível, a autoridade familiar interfere no que as irmãs sabem uma da outra. A casa organiza também a informação. Para que uma separação dure, alguém precisa ter o poder de tornar sua versão dos acontecimentos mais forte que a experiência das mulheres. O melodrama de Karim Aïnouz devolve peso a sentimentos que esse regime doméstico tenta diminuir.

Três Verões desloca a questão para a manutenção. A casa de lazer só funciona porque outras pessoas trabalham quando seus donos descansam. Sandra Kogut observa o que acontece quando essa organização perde estabilidade. O conhecimento cotidiano de Madá, interpretada por Regina Casé, passa a ter um valor que a hierarquia social não lhe reconhecia.

O que a comparação não deve apagar

Esses movimentos têm ritmos diferentes. A engrenagem do thriller, a expansão afetiva do melodrama e a elasticidade da comédia não são embalagens para uma mensagem social pronta. Cada forma distribui nossa atenção: uma nos faz prever a catástrofe; outra, sentir o tempo perdido; outra, perceber a possibilidade prática que aparece dentro de uma crise.

Também há um limite produtivo nessa aproximação. A habilidade de sobreviver a uma estrutura não prova que ela se tornou justa. O desejo de voltar a uma casa não garante que aquela casa ofereça proteção. E expor o privilégio de seus proprietários não resolve o destino de quem depende deles. Reunir os filmes numa prateleira é manter essas diferenças em conversa, sem premiar uma suposta solução comum.